Moçambique: Ativista acusa Chapo de usar cheias para "likes"


Ativista Fátima Mimbire critica políticos moçambicanos por usarem as cheias para autopromoção nas redes sociais. Ela acusa sobretudo o Presidente Daniel Chapo de priorizar a popularidade em vez de soluções para a crise.


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Até agora, há registo de mais de 100 mortes devido às cheias em Moçambique, segundo dados oficiaisFoto: Amilton Neves/AFP/Getty Images

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Multiplicam-se nos últimos dias - nas redes sociais de partidos e figuras políticas - publicações sobre as chuvas e inundações que assolam Moçambique. Também partidos como a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO, no poder) e a Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA) anunciaram a transformação temporária de algumas sedes em centros de abrigo para as vítimas.


Vozes críticas acusam os partidos de estarem a usar a calamidade para autopromoção e aproveitamento político. É o caso da ativista moçambicana, Fátima Mimbire, que fala em "populismo barato".  Mimbire condena, em particular, a postura do Presidente Daniel Chapo e sublinha que falta, por parte das autoridades, uma "comunicação institucional coordenada" e informativa.


DW África: Como avalia a comunicação sobre as cheias em Moçambique?


Fátima Mimbire (FM): Constatamos algum populismo. E o mais preocupante desse populismo é quando ele vem do próprio Estado, por exemplo. Para mim é bastante arrepiante quando o Presidente da República pega num helicóptero para sobrevoar as zonas afeadas com a primeira-dama, sem que esteja acompanhado de pessoal técnico, que realmente analisa e explica o que está a acontecer.



No meio do caminho encontraram pessoas sitiadas – e socorrer aquelas pessoas foi um gesto muito oportuno do Presidente da República – mas acho inadequado que a Presidência da República tenha logo feito um comunicado de imprensa a anunciar que Daniel Chapo salvou 12 pessoas. Esta é que é a questão de fundo. Aquele helicóptero poderia estar nas mãos de quem tem como função principal fazer as buscas e salvamento.


DW África: Tem havido, na sua opinião, um aproveitamento político diante desta situação?


FM: O Presidente da República está preocupado em fazer vídeos e fotos para alimentar a sua página no Facebook. E eu acho que o populismo por parte dos gestores públicos é muito mais imoral e inaceitável do que por parte de privados. O papel de gestor público é implementar medidas arrojadas, assertivas, expeditas, para minimizar o sofrimento das pessoas.


A vida tem de estar em primeiro lugar e não os "likes" ou a busca a todo o custo por reconhecimento público.


DW África: Pegando no que está a dizer, acha então que tem havido mais preocupação em usar, por exemplo, as redes sociais para exibir os feitos do que uma aposta numa comunicação efetiva?


FM: Sim, o poder das redes sociais podia ser usado para assegurar que as pessoas, de facto, tenham acesso à informação que precisam para poderem ser acolhidas e atendidas, mas também para informar a sociedade sobre o que está realmente a acontecer – sobre as medidas do Estado, as necessidades e os locais de entrega de ajuda.



Estima-se que mais de 173 mil pessoas foram afetadas pelas chuvas e inundações em MoçambiqueFoto: Carlos Uqueio/AP Photo/picture alliance

Falta aqui uma comunicação institucional coordenada. Se se usasse o poder de alcance nas redes sociais para o que é útil, isso seria mais-valia. Mas esta forma de populismo, de autopromoção, não ajuda muito. Precisamos de coordenar e orientar a comunicação. Claro que o Presidente da República pode fazer publicações, mas não da forma como temos acompanhado.


DW África: Em relação à resposta que tem sido dada, ainda faltam preparação e meios, especialmente de prevenção?


FM: Parece que o Governo não se preparou como deve ser para esta situação. Tudo indica que o Governo foi apanhado de surpresa, do ponto de vista da magnitude do problema. Outra pergunta que surge é onde está o plano de contingência?


O que deveríamos estar a ver acontecer neste preciso momento era termos o Centro Nacional Operativo de Emergência (CENOE) a funcionar ininterruptamente, informando os cidadãos sobre o evoluir da situação, as medidas que estão a ser adotadas, onde estão os centros de realojamento, onde buscar ajuda, para onde ligar, quem está sitiado. Não é aceitável que um país que enfrenta ciclicamente estes momentos de chuvas, inundações e ciclones seja apanhado de surpresa, com pessoas a morrer de qualquer maneira.



Cláudia Marques Jornalista multimédia da DW África

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